(Foto: Shutterstock)

Michelle Rabelo

michelle.rabelo@opopular.com.br

“Tá tudo bem, inclusive se não estiver tudo bem.” A frase que estampa camisetas e posts nas redes sociais não é nova. Apesar de só agora ter ganhado eco entre mulheres que estão adoecendo por conta da autocobrança, há tempos psicólogos enxergam na autoconsciência o caminho mais promissor para cuidar da saúde mental. Em todo caso, desde que tomou a internet e as rodas de conversa, onde é permitido falar sobre cansaço, culpa e ansiedade, a ideia ganhou defensoras que, além de verbalizar suas vulnerabilidades, decidiram se importar menos com as opiniões alheia e deixar para trás a chamada “síndrome da supermulher”.

A decisão vem acompanhada por um mantra: “um dia de cada vez”. Afinal, é preciso paciência para encontrar caminhos alternativos dentro de uma sociedade que defende a coexistência de várias personagens femininas em um só corpo. O problema é que, nos últimos anos, por conta da urgência do tempo, pensar em formas de conciliar mãe, filha, esposa, profissional e mulher vaidosa, ou até mesmo abrir mão de uma delas, ficou cada vez mais difícil. “Estamos sempre ocupadas. Sobrecarregadas com a ideia de que precisamos trabalhar fora sem renunciar ao papel de cuidadoras dos filhos, dos marido, dos pais, dos irmãos”, acredita a psicóloga Alice Kanuto.

Na opinião da especialista, um ponto nevrálgico do debate é o fato de os homens não terem repensado seu lugar nessa nova configuração social, onde as mulheres saem para trabalhar e contribuem igualmente no sustento da casa. “A relação fica ainda mais delicada quando nos deparamos com diferentes tipos de julgamentos e tons de crítica, diante de falhas cometidas por uma figura feminina. Somos incisivamente mais cobradas, vistas como emocionalmente instáveis e, de quando em quando, taxadas de descontroladas, loucas ou histéricas. Isso cria na mulher uma necessidade de parecer forte, prontamente capaz e sempre disponível.”

Equilibrando bandejas

Para dar conta do recado, durante um tempo a empresária Laura Rosa, 38 anos, foi quatro mulheres em uma. Casada há sete anos, ela se dividia entre as responsabilidades da casa, a administração de uma pequena empresa, a dedicação aos dois filhos, Davi Luiz, 4, e Dante Henrique, 2, e o cuidado com o corpo. “Acordava todos os dias antes das 5 horas e corria 7 km. Às 8 horas, já tinha preparado o almoço, ajeitado a casa e arrumado as crianças, que iam comigo para o trabalho. Em um determinado momento, eu entendi que me desdobrava por medo do julgamento alheio e aquela rotina maluca parou de fazer de sentido pra mim”, recorda-se.

Uma das maiores conquistas foi aceitar a ida de Davi e Dante para um Centro Municipal de Educação Infantil (Cmei). “Antes, eu achava que estaria terceirizando o cuidado com eles, que aquilo me transformaria numa péssima mãe e que eu perderia o controle da situação”, confessa. As corridas também ficaram mais escassas. “Me dei o direito de ficar um pouquinho mais na cama, tomar café com calma e até contratar uma diarista. Entendi que preciso cuidar de mim para conseguir cuidar do outro. Que é bonito acolher quem sou e engrandecedor perceber as minhas limitações. Compreendi que é humano aceitar que essa mulher da minha imaginação só existe lá.”

A autocobrança é coisa antiga e passa, na opinião da própria Laura, pela criação que recebeu. “Perdi a minha mãe muito cedo e cresci em um ambiente muito masculino, com meu pai e meus dois irmãos. Acho que essa busca por independência nasceu aí”, conta. Não por acaso, ela trabalha desde os 16 anos e nunca lidou bem com a possibilidade de errar. “Tinha muito medo de não conseguir fazer alguma coisa ou falhar no cuidado com a minha família. Depois que me tornei mãe, o temor se transformou em fobia”, recorda-se, referindo-se a quando foi diagnosticada com síndrome do pânico, em 2016. Desde então, Laura diz que está em processo de recuperação, vivendo um dia cada vez.

Para a psicóloga Alice Kanuto, o processo de sobrecarga feminina impacta diretamente a qualidade das relações que essa mulher estabelece com o outro. “Muitas mulheres acham que se delegarem funções ou pedirem ajuda estarão atestando sua incapacidade de serem boas filhas, mães ou esposas. Diante do medo do julgamento, a saída, na maioria das vezes, é assumir todo o ônus e não dividir o peso com quem está próximo. O que acaba criando um processo de culpabilização e reforçando a ideia de que ela precisa dar conta de tudo”, explica. Daí o termo, cunhado pela psicoterapeuta Marjorie Hansen Shaevitz, no livro Síndrome da Supermulher (1986).

#semtempoirmão

Levante a mão quem é mulher, tem entre 30 e 60 anos e conhece duas verdades sobre o que é ter sucesso. Hoje não, mas antigamente o caminho era um só e passava por uma faculdade, um emprego com carteira assinada, marido e filhos. A psicóloga Andiara Bueno, 58 anos, seguiu a receita à risca. Casada há três décadas e mãe de Eduardo Bruno, 32, e Lucas, 28, ela viu o rebento crescer enquanto construía uma carreira consolidada.

Há cinco anos, porém, uma doença na família colocou as coisas em outra perspectiva. “Fiquei sobrecarregada e passei a não ter tempo para cuidar de mim, o que me fez sentir o peso de decisões anteriores. Eu havia feito duas pós-graduações ao mesmo tempo e assumido uma jornada dupla no consultório, sem perceber o quanto aquilo era pesado”, recorda-se.

Na época, afastar-se do trabalho, temporariamente, parecia a melhor opção, mas lidar com as críticas, em um cenário onde a mulher precisa constantemente se provar, foi um grande desafio. Tempos depois, a escolha ganhou caráter definitivo e a vida de Andiara, um novo ritmo – mais leve e feliz.

#mamanodrama

A revolução não se dará por meio do universo virtual, mas é nele que grupos de discussão e rede de apoio vêm conectando pessoas e construindo pontes. Há cerca de dois anos, Lela Veras, 45, descobriu a potência da internet para falar sobre uma maternidade leve e sem culpa. Mas hoje, quem vê a empresária com os filhos Gabriel, 12, e Felipe, 10, nas fotos do Instagram, nem imagina o caminho percorrido até aqui.

Casada há 18 anos, ela era uma workaholic assumida que trabalhava mais de dez horas por dia e só decidiu colocar o pé no freio depois de um susto. “Passei quase três anos tentando engravidar, entre episódios de ansiedade e taquicardia. Aí percebi que tinha algo errado com esse ritmo insano. Pedi demissão e tirei um período sabático. Comecei a fazer trabalho voluntário, olhar para dentro e estabelecer uma nova relação com o tempo das coisas. Se dava certo, bem. Se não dava, também”, recorda-se.

A pausa espantou o fantasma da autocobrança e deu condições para que Lela gerasse o Gema Transforma, projeto por meio do qual ela fala sobre a beleza de criar filhos de um jeito mais leve e a importância do autoconhecimento. “Quando a mulher cuida dela, também cuida dos seus.”

#respira e #nãopira

“Sempre estou atarefada e agitada. Não delego tarefas. Tenho dificuldade em dizer não. Sempre faço o que me pedem. Me sinto culpada por tirar um tempo para mim.” As afirmações, segundo um teste elaborado pela psicóloga Rosangela Sampaio, são sinais de que algo está errado. O questionário, feito com base no trabalho da psicoterapeuta Marjorie Hansen Shaevitz, pretende identificar quem sofrem com a chamada síndrome da supermulher, conjunto de sintomas causados, geralmente, pela tentativa de conciliar carreira, vida familiar, maternidade e outros papéis que, segundo a sociedade, devem ser desempenhados por figuras femininas.

A especialista conta que na maioria dos casos existe uma vontade tão grande de executar todas as funções de forma primorosa, que a frustração é quase inevitável. “O resultado de tamanha pressão é uma sensação de esgotamento físico e mental que pode evoluir para problemas psicológicos mais graves, como ansiedade, depressão e síndrome do pânico”, explica.

Faça o teste

Descubra se você sofre com a síndrome da supermulher:

1. Sempre estou atarefada e nunca tenho tempo para mim mesma.

a) Verdadeiro

b) Falso


2. Me sinto culpada em tirar um tempo para mim mesma.

a) Verdadeiro

b) Falso


3. Estou sempre ou quase sempre agitada/ estressada.

a) Verdadeiro

b) Falso


4. Não delego tarefas. Acredito que é minha responsabilidade fazer as coisas.

a) Verdadeiro

b) Falso


5. Tenho dificuldade em dizer não. Sempre faço o que me pedem.

a) Verdadeiro

b) Falso


6. Estou sempre ajudando outras pessoas, mesmo quando não me pedem ajuda.

a) Verdadeiro

b) Falso


7. Faço tudo sozinha porque não tenho ajuda nem suporte.

a) Verdadeiro

b) Falso


8. Às vezes, me sinto deprimida porque as pessoas não reconhecem os meus esforços

a) Verdadeiro

b) Falso


9 Sou perfeccionista e sempre estou me cobrando mais e mais

a) Verdadeiro

b) Falso


10. As pessoas parecem ter se habituado a largar tudo em minhas costas

a) Verdadeiro

b) Falso


RESULTADO

- Nenhuma resposta “A”: não possui sintomas da síndrome.

- De 1 a 3 respostas “A”: exibe um ou outro sintoma da síndrome. Você precisa avaliar, checar hábitos e atitudes que podem estar provocando resultados negativos.

- De 4 a 6 respostas “A”: exibe boa parte dos sintomas da síndrome. Se a sensação angustiante se manifestar com frequência, cogite procurar um acompanhamento.

- De 7 a 10 respostas “A”: exibe a maioria dos sintomas da síndrome. Você cultiva hábitos prejudiciais para o seu desempenho. Está na hora de buscar auxílio profissional.

Fonte: Rosangela Sampaio, psicóloga

Laura Rosa: “Em um determinado momento, eu entendi que me desdobrava por medo do julgamento alheio e aquela rotina maluca parou de fazer sentido pra mim (Foto: Diomício Gomes)
Lela Veras: “Pedi demissão e tirei um período sabático. Comecei a fazer trabalho voluntário, olhar para dentro e estabelecer uma nova relação com o tempo das coisas” (Foto: André Costa / O Popular)
Andiara Bueno: “Fiquei sobrecarregada e passei a não ter tempo para cuidar de mim, o que me fez sentir o peso de decisões anteriores” (Foto: Fábio Lima)
Escolha seu assunto favorito.
E-mail registrado com sucesso!
A partir de agora você receberá seus assuntos preferidos por e-mail.
Os comentários publicados aqui não representam a opinião do jornal e são de total responsabilidade de seus autores.

Comentários